quarta-feira, 9 de agosto de 2017

PLAF: a hora e a vez do quadrinho nacional!

A primeira edição da revista Plaf será lançada no final do mês de agosto, com a arte da capa assinada pela quadrinista Lu Caffagi. A publicação terá 64 páginas, custará R$ 15 e foi editada pelos jornalistas Carol AlmeidaDandara Palankof e Paulo Floro. O primeiro número será vendido em lojas especializadas de Recife, João Pessoa, São Paulo e Curitiba. “A ideia principal era fazer uma revista que traduzisse bem o momento atual dos quadrinhos no Brasil”, diz Floro. Além de falar sobre a cena nacional de HQs em reportagens, entrevistas e resenhas, a Plaf também terá quadrinhos inéditos assinados por Lu Cafaggi, João Lin, Caio Oliveira e Raoni Assis.

A Plaf terá periodicidade bimestral, com seus quatro primeiros números produzidos com incentivo do Funcultura (Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura, do Governo do Estado de Pernambuco). O slogan da revista é “O mundo dos quadrinhos é o mundo todo” e o material de divulgação do periódico promete “foco na produção autoral e na diversidade temática, abordando desde autores brasileiros até produções estrangeiras”. A publicação também é uma iniciativa da Revista O Grito!. Segundo os editores, “a ideia é que outras publicações sejam lançadas, sempre tendo como proposta a valorização da cena independente”.
No sumário desse primeiro número da Plaf consta uma matéria minha sobre os ciclos produtivos das HQs brasileiras, inspirada nos meus dois cursos realizados na Ugra em 2016. Dentre os destaques da edição estão uma entrevista com o quadrinista André Dahmer, um infográfico sobre as andanças de Tintin pelo mundo e uma coluna sobre Maria Aparecida Godoy, uma das primeiras roteiristas brasileiras a ganhar destaque no mercado editorial. Também focada na cena pernambucana e nordestina de quadrinhos, a Plaf também virá com uma reportagem sobre a Ragu, importante publicação de quadrinhos de Recife. Um dos quadrinhos impressos é assinado por Raoni Assis e Rodrigo Acioli tratando do Ocupe Estelita, movimento que questiona a especulação imobiliária em uma área histórica do Recife. Lu Caffagi, Renata Rinaldi, João Lin e Caio Oliveira assinam as demais HQs.
Fiz uma entrevista por email com Paulo Floro e Dandara Palankof sobre as origens da Plaf, a linha editorial do projeto, o conteúdo desse primeiro número e os planos para o futuro da publicação. Ó:

“O mundo dos quadrinhos é o mundo todo”

É daquelas perguntas meio óbvias, mas essenciais. Qual é a origem da revista? Vocês lembram do momento em que surgiu a ideia da Plaf?
Paulo: Eu sempre quis criar algum produto derivado da cobertura de quadrinhos que fazíamos na Revista O Grito!, mas não sabia bem o quê. Desde o início, lá em 2008, 2009, quando criamos o site tínhamos como proposta falar de HQs sem ter o nicho geek/nerd como norte, apostando em um olhar mais alternativo, autoral, “indie”, que era a nossa proposta pra falar de música, por exemplo. E sempre amei revistas impressos, como colecionador mesmo, aí fui amadurecendo a ideia de criar um título impresso. Com o crescimento do cenário de quadrinhos brasileiro, com autores nacionais ganhando cada vez mais destaques e a chegada de obras estrangeiras por aqui, novas editoras, toda essa efervescência, criei esse projeto de uma revista sobre esse momento, que comentasse tudo isso. Tentei por dois anos que ela fosse aprovada em um edital de cultura daqui de Pernambuco (o Funcultura) até que fosse aprovado. Sabia que seria caro fazer a revista com o formato que imaginamos. Para a empreitada chamei Dandara Palankof, que é uma amiga pessoal, colega de mestrado (onde pesquisa quadrinhos, assim como eu) e que assina uma coluna n’O Grito! sobre mulheres e HQs, além de ser tradutora para editoras como Mino e Panini. E convidei também Carol Almeida, que foi uma das primeiras pessoas a escrever sobre quadrinhos com regularidade na imprensa daqui e que sempre admirei muito. Eu só concebi o projeto inicial da revista, mas de resto tudo foi criado em conjunto, o formato, as seções, pautas, HQs, tudo. E chamamos Erika Simona, que é uma designer que já colaborou com O Grito! e que tem uma visão muito criativa e elegante.

“A ideia é tornar os quadrinhos – ou melhor, o debate sobre os quadrinhos – popular no Brasil”

Eu ainda não li a Plaf, mas pelo release, pela capa e pelo que vocês me adiantaram, a linha editorial dela parece ser muito focada na diversidade dos quadrinhos brasileiros – seja de estilos, gêneros, regiões… Como vocês chegaram nesse foco?
Paulo: Sim, a ideia principal era fazer uma revista que traduzisse bem o momento atual dos quadrinhos no Brasil. Tanto em relação aos trabalhos autorais daqui quanto em relação à produção estrangeira que está saindo no país. Queremos falar também de mercado, de quadrinhos na universidade, olhar para todos os lados, sabe, mas sem nunca esquecer as HQs como uma expressão artística própria, autoral, criativa. Quando nos reunimos pela primeira vez decidimos estabelecer que a Plaf teria como desafio mostrar os quadrinhos como uma arte que dialoga com o mundo, por isso bolamos o slogan “o mundo dos quadrinhos é o mundo todo”. Você vê isso acontecer com outras artes o tempo todo: cinema para falar de conflitos mundiais, literatura para comentar relações sociais, temas como feminismo, raça, gênero, artes visuais como alegorias para momentos políticos, etc. Mas com quadrinhos sinto essa tendência de se fechar, falar com um só público, analisar a obra de maneira fechada. Hoje não podemos falar de alguém como Dahmer ou D’Salete apenas pelo fato de seus trabalhos serem narrativamente incríveis. Nem com os comics americanos podemos fazer isso, imagine autores brasileiros ousados como esses? Aí demilitamos esse foco. Para o primeiro número nossa matéria principal é sobre quadrinhos LGBT e queer, pois quisemos marcar território, falar com propriedade de algo que sabemos na pele já que a revista tem duas lésbicas e um cara gay como editores hehe.
O segundo foco foi falar de quadrinhos do Nordeste. Tem muita coisa incrível por aqui que não consegue projeção. Queremos também incentivar a produção local, sobretudo aqui de Recife. Nesse número temos uma matéria sobre a Ragu, que é uma revista super importante para os quadrinhos e que sempre admiramos enquanto leitores. Esperamos que ela retorne em breve, pois sua importância para a arte das HQs ainda precisa ser mais reconhecida. E chamamos nomes veteranos para assinar HQs, caso de João Lin e de um mais novo, Raoni Assis, que é também artista plástico.
E o terceiro foco da revista é mostrar que os quadrinhos são bem legais, populares, instigantes e que todo mundo deveria ler! Tem quadrinho pra todos os gostos. Nos preocupamos em deixar o texto bem gostoso de ler, ainda que se aprofundem bastante nos temas. O importante é que a gente quis afastar um tom mais acadêmico, distanciado, pelo contrário, queremos a Plaf o mais pop possível. Por conta do incentivo do edital deu para vender a revista por R$ 15, o que é bem barato para a qualidade do papel, tamanho, etc. Mas a ideia é tornar os quadrinhos – ou melhor, o debate sobre os quadrinhos – popular no Brasil.
A revista mescla matérias e resenhas com histórias em quadrinhos. Como foi o trabalho de chegar nas pautas e nos autores que entrariam nessa edição? Vocês sugeriram temas para os quadrinistas?
Paulo: Desde o início nos empolgamos com a ideia de trazer HQs inéditas, o que acredito aumentou o valor simbólico da revista. Cada artista que chamamos teve uma história diferente. A capa decidimos chamar a Lu Cafaggi pois queríamos uma arte delicada como o estilo dela. Aí aproveitamos e pedimos uma HQ. Dissemos a ela o tema principal da edição, que era LGBT e quadrinhos e ela nos entregou uma história linda sobre um casal de meninas. Com João Lin decidimos dar carta livre, pois o estilo dele é bem experimental e ousado e decidimos não interferir nada no processo criativo. Renata Rinaldi é um nome que sempre admiramos e que vem do quadrinho independente e queríamos alguém desse meio, que é mais ousado. Amo os zines dela desde que conheci no FIQ de 2015. Para a HQ de fechamento pensamos em colocar uma tira de humor e um dos nomes que mais curtimos é Caio Oliveira, do Piauí. E a história do Ocupe Estelita surgiu já na nossa primeira reunião de pauta. Quando convidamos Raoni Assis já foi falando dessa pauta. Iríamos chamar Raoni para a revista de uma maneira ou de outra, pois acho que ele é um dos autores mais interessantes no momento em Pernambuco, mas a HQ que ele criou sobre o movimento é algo que vai ficar pra sempre, ficamos bem felizes com o resultado. Cineastas locais têm comentado bastante sobre o mal da especulação imobiliária e a destruição da memória aqui no Recife e agora os quadrinhos também trazem uma contribuição. Isso é muito legal e nos dá muito orgulho.
Recife é um pólo cultural brasileiro e movimentos como o Ocupe Estelita mostraram um pouco do ativismo dessa cena artística local. A Plaf também reflete sobre essa agitação rolando por aí?
Paulo: A gente espera que sim! Tentamos fazer isso com a cobertura na Revista O Grito!, destacando autores que tratam de assuntos importante à cidade. Com a Plaf queremos que os quadrinhos também sirvam como uma expressão artística relevante para debates. Você pega o movimento Ocupe Estelita e vê vários artistas engajados, de música a cinema, passando por artes visuais e teatro. Agora os quadrinhos também estão chegando. O ponto crucial é que a cena de quadrinhos estava adormecida por aqui, mas está ressurgindo. No passado tínhamos um evento de porte, o Festival Internacional de Humor e Quadrinhos, que trouxe até Will Eisner, tínhamos a Ragu, etc, mas foi arrefecendo. Quando eu e Dandara fomos ao FIQ de 2015 as pessoas não paravam de nos perguntar, “porra, cadê os gibis de Recife?, “Vocês tem uma produção gigante de filmes, discos, mas não vemos as HQs”, etc. Agora isso já está mudando: na Comic-Con Experience Tour, que rolou esse ano, pudemos ver muitos lançamentos pernambucanos, além de muitos autores da Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte e Piauí. Ficamos bem felizes. Não quero ter a pretensão de dizer que a Plaf vai significar uma retomada da produção local, mas queremos ajudar de alguma maneira.

“É importante que todo meio, toda expressão artística – tudo que atinge um público intelectualmente e emocionalmente – sofra uma reflexão”

A produção de conteúdo sobre quadrinhos na internet brasileira tá cada vez mais voltada pro consumo. Desde a chegada da Amazon no Brasil há uma proliferação de canais no YouTube e sites especializados voltados pra indicação da compra de HQs – e acredito que isso acaba esvaziando um pouco o debate. Qual vocês consideram ser a importância de se refletir sobre HQs e aprofundar a conversa como a Plaf se propõe a fazer?
Dandara: Realmente, a discussão sobre as histórias em quadrinhos na mídia, hoje, se limita basicamente às resenhas – não que elas não sejam importantes; uma revista como a que nos propusemos a fazer, inclusive, precisa ter uma seção de resenhas – assim como fazem outras publicações, como o Suplemento. Mas a discussão não pode se encerrar em quais os gibis mais maneiros pra comprar no mês. É importante que todo meio, toda expressão artística – tudo que atinge um público intelectualmente e emocionalmente – sofra uma reflexão. Sobre sua história, seus lugares na sociedade, seus discursos. É justamente por percebermos esse vácuo que a Plaf foi criada: pra somar, pra agregar ao público leitor, em formação ou veterano, mais espectros sobre esse mundo tão plural, em gêneros, formatos e mensagens, que são as histórias em quadrinhos.
Quais os planos de vocês pro futuro da revista? A segunda edição já está em produção?
Paulo: A gente aprovou quatro números nesse edital de cultura, então temos planos de manter esse mesmo preço por esse período. A nossa meta é dar vida longa à publicação. Para isso estamos fazendo um caixa para lançar a revista a partir do número cinco. Depois da estreia vamos cair em campo em busca de apoio para financiar a revista e acreditamos que ela tem um potencial enorme de crescer e atingir muitos outros públicos. Estamos já trabalhando no número 2 e estamos empolgadíssimos.
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