quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Fez-se o Top! Top!

Por Milena Azevedo - GHQ
 
Manassés Filho, proprietário da comic shop Comic House, em João Pessoa, há muito vinha ensaiando produzir uma convenção de quadrinhos na cidade.
Após firmar uma parceria entre a Comic House e a escola de inglês Yázigi, Manassés conseguiu tornar realidade o Top! Top!, a primeira convenção paraibana de quadrinhos, que reuniu quadrinistas, colecionadores e nerds de plantão entre os dias 1 e 2 de dezembro de 2012.
A grande atração do evento que presta homenagem direta a Henfil e ao fanzine do Prof. Henrique Magalhães foi a diretora documentarista Marisa Furtado, criadora da série Profissão Cartunista, embora os artistas da casa estivessem todos lá: Mike Deodato Jr., Emir Ribeiro, Jack Herbert, Ricardo Jaime, GG Carsan, o pessoal do Made in PB e do Coletivo WC.
Com programação vasta e bem distribuída dentro da estrutura do Yázigi, com salas amplas e climatizadas, bem iluminadas e sinalizadas (sem falar nas paredes de um dos corredores do Yázigi, ostentando a exposição de caricaturas e charges do ilustrador William Medeiros), o Top! Top! trouxe excelentes mesas-redondas, como a dos quadrinhos independentes, colocando em pauta a discussão sobre a produção de fanzines, e-zines e blogues, e o quão importante foi a escola do fanzine para a formação dos artistas de ontem e de hoje. Os professores Cellina Muniz (UFRN) e Henrique Magalhães (UFPB) defenderam a produção do fanzine clássico, em papel, com todas as suas nuances, inclusive o cheirinho de tinta.

Outra mesa a ser destacada foi a do Mike Deodato Jr. e do Emir Ribeiro, que substituiu de última hora “Deodato Pai”. Deodato contou que seu pai foi seu herói duplamente, primeiro porque o apresentou aos grandes mestres dos quadrinhos, e depois por ter criado o Flama e interpretado o personagem no rádio. Ele também disse que Velta (personagem criada pelo Emir) o inspirou a produzir seus próprios quadrinhos, e que a troca de informações e quadrinhos com o Emir foi benéfica para ambos – no que Emir completou: “Deodato desapareceu por um tempo e quando o reencontrei ele estava eufórico porque havia começado a ganhar uma grana boa desenhando para os Estados Unidos”.
Mas, sem sombra de dúvida, o momento mais hilário do Top! Top! foi Deodato revelando a gafe que cometeu quando foi pela primeira vez ao festival de Angoulême, na França. Através de Ziraldo, que o indicou a ir junto com uma comitiva de artistas brasileiros a Angoulême, em 1986 – entre eles Mauricio de Sousa, Luiz Gê, Paulo e Chico Caruso –, Deodato ainda rapazote, ao ser apresentado a um agente da Metal Hurlant alemã, não cortou conversa e fez a saudação nazista: Heil, Hitler! (com direito a braço estendido e tudo). Luiz Gê, todo sem jeito, pediu desculpas ao agente e Deodato pensou que havia enterrado de vez a possível publicação de uma história sua na revista. Mas tudo se resolveu.
Dos vários documentários exibidos, os mais interessantes foram aqueles que contaram com os respectivos diretores para comentá-los, como Marginal (sobre o início da carreira de Shiko) e Profissão Cartunista – Ziraldo e Will Eisner. Há 21 anos a Marisa Furtado trabalha na produção de eventos, fazendo contato direto com os artistas norte-americanos e europeus (foi ela quem idealizou a belíssima exposição do Spirit, ano passado, na Rio Comicon). Ela encantou a todos com suas histórias de bastidores sobre a produção da série Profissão Cartunista, relembrando quando conheceu Will Eisner, e do “Marisa Tur”, o fusquinha que ela usava para transportar alguns artistas durante as bienais e eventos de quadrinhos no Rio de Janeiro. No final, revelou estar cansada de fazer esses documentários, cuja recepção é mais calorosa nos Estados Unidos do que no Brasil. E deixou escapar que ainda tem vontade de fazer um último doc. sobre as esposas dos grandes mestres dos quadrinhos. Outra revelação importante feita pela Marisa foi sobre a sobra de material de filmagem; por exemplo, ela guarda em torno de 400 minutos de entrevista inédita feita com o Jerry Robinson, a qual não deve entrar nem nos extras do DVD (que lançará em 2013, provavelmente na Comic Con de San Diego). Já o Bruno, irmão do Shiko, contou os percalços para fazer o documentário Marginal, que na verdade foi seu TCC do curso de Comunicação Social – teve que pedir a câmera emprestada a um amigo e ainda precisou pagar um rapaz para fazer a edição do mesmo. A curiosidade desse doc. é ver o nobre Manassés ainda usando óculos de grau, bem como as páginas iniciais do que viria a ser Blue Note, e saber que o roteirista Biu existe (não é uma persona criada pelo Shiko, como algumas pessoas achavam).
Também houve uma porção de lançamentos bacanas e sessões de autógrafo, com presença do pernambucano Mascaro (lançando Ragu Cordel), do paulista Eduardo Schloesser (relançando a primeira edição do Zé Gatão), e os paraibanos Mike Deodato Jr. (A arte cartum de Mike Deodato), Ricardo Jaime (com a compilação das tiras do Espedito), Emir Ribeiro (40 anos de Velta), GG Carsan (Tex no Brasil), e o pessoal do Coletivo WC (lançando Sanitário n° 1 e o Igor Tadeu com One Hit Wonders); além disso, estava sendo lançamento nacionalmente o sketchbook do genial Joe Bennet, com direito a capa dura e tudo.
Em se tratando de oficinas, Manassés foi atrás da fina nata do quadrinho paraibano (Paloma Diniz e Janúncio Neto, do Made in PB) e também potiguar (Beto Potyguara, Giovana Leandro e Paulo Morais, Renato Medeiros e Leander, esses dois últimos são do coletivo K-ótica).
Quem não teve sossego durante o evento foi o simpático e zen Ricardo Jaime, que estava cobrando cinco reais pelo desenho do rosto de qualquer personagem, e dez reais pela silhueta integral. Faturou muito e merecidamente. E ainda teve forças para às oito horas da noite do domingo fazer um Gandalf soberbo para um fã da obra de Tolkien.
O evento transcorreu na paz, apenas com algumas leves mudanças na programação, como Mascaro, que precisou antecipar sua participação para o sábado, desfalcando a mesa sobre produção independente no domingo. A exibição do documentário Profissão Cartunista – Will Eisner foi modificada e terminou ocorrendo no mesmo horário de Malditos Cartunistas, o que forçou o público a escolher qual dos dois iria assistir.
Com a chuva que caiu no domingo, algumas pessoas optaram por aparecer apenas no final da tarde, o que promoveu um esvaziamento em algumas salas e oficinas, mas nada que fosse tão grave a ponto de não haver ninguém para uma determinada atividade.
Uma surpresa boa foi a participação da Professora Vitória Lima, mãe de Thaïs Gualberto (Coletivo WC). A Prof. Vitória esteve durante a tarde de domingo em quase todas as atividades do evento, e fez questão de dizer que em suas estantes sempre os quadrinhos tiveram vez, e que Thaïs cresceu tendo essa grande proximidade com a nona arte.
No mais, ressalto a mediação dos jornalistas Renato Félix e Audaci Jr. nas mesas-redondas, mostrando conhecimento profundo sobre cada convidado e sabendo tirar deles depoimentos relevantes e lembranças curiosas, levando os fãs ao deleite.
Em sua primeira empreitada de fôlego – e mesmo com a limitação de ter que fazer quase tudo sozinho -, Manassés provou que está mais do que credenciado para produzir eventos de médio a grande porte.
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