terça-feira, 28 de agosto de 2012

Guerra Santa nos quadrinhos

A história do Quarteto Fantástico em Marvel Apresenta # 5 traz uma inegável proposta intervencionista contra um estado árabe pacífico, e foi lançada nos Estados Unidos em setembro de 2001, no mesmo mês dos atentados ao World Trade Center
Por André Lopes - UHQ

Capa de Marvel Apresenta #5"Esta cidade tem muitos nomes em diferentes mundos [Vê-se um edifício com arquitetura nitidamente árabe]. Em todos, uma coisa permanece constante. Não importa se por acidente ou desígnio, por governo ditatorial ou pelo natural fluxo de eventos. Ela é, com orgulho, uma das maiores metrópoles do globo. Aqui e agora, porém, se encontra humilhada pelo jugo de invasores, suas torres brilhantes, eclipsadas pela cidadela sinistra que se ergue onde antes havia o palácio de seu amado califa. Liberdade é uma lembrança distante. O espírito da terra e de todo o povo foi quebrado por Jihad". 

O trecho acima não parece tão despropositado, se levarmos em consideração a recente Invasão do Golfo. Jihad é a Guerra Santa de todo povo árabe: quando clamada, os fiéis seriam convocados a defender sua crença em armas. Estivemos a um passo dela - talvez ainda estejamos. Mas a proposta é uma reflexão sobre o texto acima. 

Poderíamos pensar que, de fato, esse relato fora afetado pelo estrito controle de imprensa do governo norte-americano e, naturalmente, defendeu uma posição intervencionista. Ou então que, deliberadamente se imbuiu do ideal libertário e comprou a mentira. 
Página de Marvel Apresenta #5O maior problema não está no conteúdo explicitado. Mas na forma como ele foi feito.

Esse era um recordatório da revista Marvel Apresenta # 5, da Panini Comics, na aventura As Quatro Viagens Fantásticas de Sinbad, protagonizada pelo Quarteto Fantástico. Sem mais nem menos, Nova York é invadida por uma bruma e um barco encantado atraca no píer onde o grupo está instalado.

Nos quadrinhos, Jihad é um monstro responsável pela mágica e transporta os heróis para uma Bagdá imaginária. Precisava de Reed Richards & cia. para resgatar uns objetos místicos e abrir um portal entre os mundos para dominá-los. 

A história trabalha com três forças: representando o lado tradicional e bom da Arábia, está Sinbad - o marujo encontrava-se imobilizado por um feitiço e aparece como a carranca na proa do navio; contrapondo-o, está Jihad, sanguinário e dominador (seus soldados são babuínos obedientes com aqueles tradicionais chapeuzinhos redondos turcos - ou seja, não têm identidade individual, como os barbudos afegãos e os bigodudos iraquianos); e para solucionar o impasse aparece a "tradicional" família norte-americana - a única capaz de reverter as ferramentas encantadas contra o bicho. 


Página de Marvel Apresenta #5Depois dos ataques terroristas contra as Torres Gêmeas, o mundo dos quadrinhos foi modificado. Diversos personagens revelaram sua identidade secreta - quem precisa se esconder é o inimigo: o Aranha contou a verdade à Tia May; Xavier, mesmo sob a desculpa de domínio mental, assumiu em rede nacional sua condição mutante; e o Capitão América creditou, também na televisão, seu massacre de terroristas a Steve Rogers.

Além disso, as tramas ficaram mais adultas e os heróis, menos super. Alguns, inclusive, abandonaram seus uniformes coloridos, caso dos X-Men, que adotaram um visual muito parecido com o do filme. 

Apesar de todo esse panorama, parecia que as mudanças ficariam por aqui. No entanto, para surpresa dos leitores, nunca se viu tamanha carga ideológica embutida numa revista. 
Página de Marvel Apresenta #5É inegável a proposta intervencionista da história. É inegável a idealização de um estado árabe pacífico. É inegável a bestialização da rebeldia e do extremismo. 

Um ponto que pode depor contra esta análise ou reforçá-la ainda mais é a data da publicação nos Estados Unidos: setembro de 2001. 

Por um lado, pode realmente mostrar o uso ideológico da HQ como resposta ao atentado sofrido; por outro, se o fatídico 11 de setembro foi concomitante ao lançamento dessa história (assim, muito cedo para refletir culturalmente a tragédia), pode provar uma forte tendência de demonizar certa face do mundo árabe. 

Ontem, o Capitão América batia no Caveira Vermelha. 

Hoje, o Quarteto Fantástico tenta evitar a (o) Jihad. 

É... os tempos mudam. 


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